Análise

Starlink: como um trem de satélites virou a maior fábrica de "OVNIs" do século

Fileiras de luzes idênticas cruzando o céu em silêncio geram ondas de relatos a cada lançamento da SpaceX. Entenda a física por trás do engano, e como descartar (ou levar a sério) o que você viu, em segundos.

Trem de satélites Starlink cruza o céu noturno sobre edifício histórico
Foto: Dktue (CC0), via Wikimedia Commons

Nenhuma tecnologia produziu tantos "avistamentos de OVNIs" quanto os satélites Starlink, da SpaceX. Desde 2019, cada lançamento despeja dezenas de satélites numa fila indiana de pontos brilhantes que cruza o céu, o famoso "trem", e, pontualmente, inunda polícias, aeroportos e centros de registro com relatos de luzes misteriosas em formação.

O tamanho do fenômeno

Os episódios se repetem no mundo todo: um site holandês de avistamentos recebeu mais de 150 relatos numa única noite na primeira aparição do trem sobre o país; em Montana, autoridades locais precisaram vir a público explicar as "luzes estranhas"; em Pittsburgh, no Texas e em incontáveis cidades, emissoras de TV fizeram matérias sobre a "fila de OVNIs", que era o mesmo lançamento visto de pontos diferentes. Hoje, com milhares de satélites da constelação em órbita, a contaminação é estrutural: relatórios oficiais como os do AARO e bancos civis como o NUFORC atribuem fatias relevantes dos registros exatamente a satélites.

Por que engana tanto

Regra prática: fila de luzes idênticas, igualmente espaçadas, cruzando o céu em linha reta e em silêncio: comece pela hipótese Starlink. Ela estará certa na esmagadora maioria das vezes.

Como verificar em segundos

Serviços gratuitos como findstarlink.com e heavens-above.com mostram os horários de passagem dos trens sobre qualquer cidade: basta comparar com a hora do avistamento. A SpaceX, pressionada por astrônomos, adotou visores e mudanças de orientação para reduzir o brilho, o que atenuou (mas não eliminou) o fenômeno. Para o observador criterioso, a lição é a do nosso guia do iniciante: anotar o horário exato vale mais do que qualquer zoom, porque permite o cruzamento que resolve o caso na hora.

E há um efeito colateral positivo: cada relato de Starlink descartado com método é um treino de calibração, o mesmo músculo que separa, nos casos difíceis, o genuinamente anômalo do apenas desconhecido.

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