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Pentágono quer assinar o maior arquivo privado de OVNIs do mundo para reconstruir a história dos UAPs desde 1945

O AARO, escritório do Pentágono para anomalias, pretende contratar sem licitação o acesso ao acervo do National UFO Historical Records Center, no Novo México: centenas de milhares de fichas de casos, muitas anteriores a 1990, para cumprir a ordem do Congresso de revisar o envolvimento do governo americano com o fenômeno desde 1945. A ironia é que o arquivo foi montado por civis justamente porque o do governo estava incompleto.

Relatório original do Projeto Blue Book, da Força Aérea dos EUA, datado de 1º de fevereiro de 1966, com a capa azul e páginas de texto
Foto: Steve Jurvetson (CC BY 2.0), via Wikimedia Commons

Um aviso de contratação publicado pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos (o nome atual do Pentágono) e revelado em 2 de setembro pelo site especializado DefenseScoop mostra o AARO, o escritório oficial de resolução de anomalias, dando um passo pouco usual: em vez de produzir dados, ele quer comprar acesso aos dados de outros. O alvo é o National UFO Historical Records Center (NUFOHRC), uma organização sem fins lucrativos de Rio Rancho, no Novo México, que reúne o que um funcionário do departamento descreveu como "a maior coleção privada do mundo de registros históricos relacionados a UAPs".

O que está sendo contratado

Trata-se de uma assinatura, e não de consultoria. O contrato, previsto sem concorrência por ser considerado fonte única, daria ao AARO acesso digital aos dados, metadados e produtos analíticos proprietários do centro, com um ano de vigência inicial e quatro renovações anuais opcionais. O custo não foi divulgado. "O serviço de assinatura dará ao AARO acesso a uma base comercial proprietária já existente e não se destina a mão de obra profissional ou serviços de assessoria", explicou o funcionário ao DefenseScoop. O interesse declarado está nos materiais anteriores a 1990, para "identificar contexto histórico faltante" e rastrear documentação do governo que nunca foi indexada. Procurado pela publicação, o NUFOHRC não comentou.

Por que o governo precisa de um arquivo civil

A explicação está na lei orçamentária de defesa de 2023, que mandou o AARO compilar um registro histórico completo do envolvimento do governo americano com o fenômeno desde 1945. O primeiro volume desse relatório saiu em março de 2024 e concluiu que não havia evidência de tecnologia extraterrestre nem de programas escondidos, mas admitiu lacunas: arquivos destruídos, coleções nunca catalogadas, décadas em que o tema simplesmente não foi registrado de forma sistemática. O Projeto Blue Book, da Força Aérea, encerrou as atividades em 1969, e o que veio depois ficou espalhado por agências, contratadas e gavetas particulares.

Foi nessas gavetas que o historiador David Marler, fundador e diretor do NUFOHRC, construiu o acervo. Ao longo dos últimos anos, pesquisadores veteranos e suas famílias lhe confiaram arquivos pessoais, e o centro assumiu coleções inteiras de grupos civis, entre elas os arquivos completos da APRO, uma das primeiras organizações de pesquisa do fenômeno, fundada em 1952, e documentos raros que pertenceram ao astrônomo J. Allen Hynek, consultor científico do Blue Book. Segundo o Pentágono, o acervo inclui "centenas de milhares de fichas de casos únicas que existem exclusivamente em seus arquivos". Marler resume a proposta sem misticismo: "não significa alienígena, mas há um mistério; vamos explorar o mistério".

O centro abriu ao público em 2024, em uma antiga escola de ensino fundamental de Rio Rancho, com visitas mediante agendamento, e espera receber mais uma ou duas dezenas de coleções nos próximos dois anos. A missão declarada no site é preservar e digitalizar documentos, fotografias, gravações analógicas e artefatos, e ser "uma voz de credibilidade em um assunto historicamente atolado em crença, controvérsia, teorias da conspiração e desinformação". Uma das coleções foi resgatada de uma caçamba de lixo no estado de Nova York.

O que muda, e o que não muda

Para a pesquisa histórica, o movimento é bem-vindo: o AARO passa a cruzar seus registros oficiais com relatos civis contemporâneos, o que pode datar, localizar e contextualizar documentos que os cinco primeiros lotes do programa PURSUE mostraram sem fio condutor (veja nosso balanço dos cinco lotes). Para o leitor, vale lembrar o que a assinatura não faz: ela não recebe relatos novos. O portal do AARO continua restrito a servidores, militares e contratados, atuais ou antigos, com conhecimento de primeira mão de programas do governo. Pilotos civis devem falar com o controle de tráfego aéreo, e o público em geral ainda espera: "o AARO anunciará quando um mecanismo de relato estiver disponível ao público", diz a página oficial. Enquanto isso, os avistamentos do cidadão comum seguem indo para centros civis como o NUFORC, cujo crescimento de relatos acompanhamos em agosto.

Há também um simbolismo difícil de ignorar. Durante décadas, ufólogos acusaram o governo de esconder o que sabia; agora é o governo que admite não saber o suficiente e recorre aos arquivos montados por esses mesmos civis. Se o contrato sair, o registro histórico oficial dos UAPs terá, entre suas fontes, as pastas que Hynek levava para casa.

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