Brasil

Operação Prato: quando a FAB passou quatro meses caçando luzes na Amazônia

Em 1977, uma onda de relatos do "chupa-chupa" aterrorizava comunidades ribeirinhas do Pará. A resposta foi única na história: uma operação militar oficial, com câmeras, mapas e relatórios, cujos arquivos hoje podem ser lidos por qualquer brasileiro.

Ilustração: objeto luminoso projeta feixe sobre palafitas à beira do rio na Amazônia
Ilustração: ufoNoticias, baseada nos relatos de Colares (1977)

No segundo semestre de 1977, moradores de Colares e de outras comunidades ribeirinhas do nordeste do Pará passaram a relatar noites de pavor: objetos luminosos que desciam sobre as casas e projetavam feixes de luz capazes, diziam as vítimas, de causar queimaduras, marcas na pele, tontura e fraqueza. O fenômeno ganhou o apelido que o eternizou, "chupa-chupa", pela crença de que a luz "sugava o sangue" de quem atingia.

A operação

Com postos de saúde registrando atendimentos e prefeituras pedindo socorro, o I Comando Aéreo Regional da Força Aérea Brasileira, em Belém, fez algo sem precedente: montou a Operação Prato, enviando uma equipe comandada pelo então capitão Uyrangê Hollanda para investigar em campo. Por cerca de quatro meses, militares acompanharam as noites das comunidades com binóculos, câmeras fotográficas e cadernos de registro: produzindo relatórios, mapas, croquis e centenas de fotos, além de entrevistas com testemunhas.

A operação foi encerrada discretamente no fim de 1977, sem conclusão pública. Hollanda, já reformado, deu em 1997 uma longa e controversa entrevista relatando o que sua equipe teria observado; meses depois, foi encontrado morto, episódio que alimentou todo tipo de especulação, embora a família e a investigação tenham tratado o caso como suicídio.

Os arquivos abertos

Durante décadas, a Operação Prato foi lenda sussurrada. Isso mudou quando a FAB transferiu ao Arquivo Nacional seus dossiês sobre fenômenos aéreos: incluindo o material de Colares, com relatórios oficiais e fotografias, hoje consultáveis publicamente. É um dos raros casos no mundo em que uma força armada documentou, em operação formal e prolongada, um fenômeno que não conseguiu identificar.

O valor histórico da Operação Prato não está na resposta, que não veio, e sim no método: pela primeira vez, o Estado brasileiro tratou relatos populares como algo digno de investigação, papel timbrado e arquivo.

Leituras em disputa

Céticos apontam que o material fotográfico é ambíguo e que fenômenos como meteoros, balões, aviões e até fauna luminosa, somados ao pânico coletivo, dão conta de boa parte dos relatos, e que as "queimaduras" nunca receberam perícia médica conclusiva. Pesquisadores do caso respondem com o volume e a consistência dos registros militares. O debate segue aberto, na mesma chave dos casos modernos: dados demais para ignorar, dados de menos para concluir. Colares pertence à mesma linhagem de investigação oficial brasileira que produziu os dossiês recém-liberados pela FAB, e é parada obrigatória para quem começou pelo nosso guia do iniciante.

Fontes desta matéria