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A aeronave que não estava lá: telegramas americanos de 1963 mostram como o "disco de Conde" nasceu e morreu em doze dias

Uma esfera metálica caída no centro da cidade, uma cratera de quatro metros, um corpo com roupa pesada e inscrições indecifráveis: a notícia dada pela Rádio Tupi na noite de 8 de novembro de 1963 chegou à embaixada dos Estados Unidos, ao Pentágono e à NASA. Em 20 de novembro, o cônsul em Salvador concluiu que tudo fora inventado no Rio. Os três documentos saíram no 5º lote do programa PURSUE.

Praia com mar agitado e coqueiros ao fundo em Conde, no Litoral Norte da Bahia
Praia em Conde (BA). Foto: Claus Bunks (domínio público), via Wikimedia Commons

Conde é um município do Litoral Norte da Bahia, conhecido pelas praias de Sítio do Conde e Barra do Itariri. Em novembro de 1963, por doze dias, foi também o cenário de um dos episódios mais curiosos dos arquivos americanos sobre OVNIs no Brasil: um caso que a diplomacia dos Estados Unidos investigou com seriedade e encerrou com um relatório cujo título já diz tudo, "Relatório negativo sobre OVNI supostamente avistado perto de Salvador, Bahia, em 8 de novembro". Os documentos, três telegramas e despachos, foram liberados em 7 de agosto no quinto lote do PURSUE e ganharam destaque na imprensa brasileira.

A notícia

Às 23h30 de 8 de novembro de 1963, a Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, noticiou que uma grande esfera metálica havia caído no centro de Conde, abrindo uma cratera de quatro metros de profundidade. O objeto teria aberturas semelhantes a janelas, cobertas por vidro grosso, e dentro dele um corpo de aparência humana, vestido com roupa pesada e marcado por inscrições que ninguém conseguia decifrar. Era o roteiro completo de um "disco caído", pronto para viajar.

E viajou. No dia seguinte, o FBIS, o serviço da CIA que monitorava transmissões de rádio estrangeiras, registrou a notícia e a distribuiu internamente. No mesmo 9 de novembro, porém, o Diário de Notícias, de Salvador, já publicava que o Ministério da Aeronáutica negava qualquer objeto estranho em Conde. Dois dias depois, o Jornal da Bahia ironizava o caso com a manchete "A aeronave que não estava lá".

A máquina de verificação

Em Washington, o boato seguiu o fluxo burocrático de um assunto sensível na Guerra Fria, em plena corrida espacial. Em 13 de novembro, o Conselho Nacional de Aeronáutica e Espaço, órgão da Casa Branca, pediu ao Departamento de Estado que a embaixada no Rio verificasse a informação no local. Em 14 de novembro, às 14h20, a embaixada telegrafou a Washington e ao consulado em Salvador, encaminhando o assunto ao Departamento de Defesa e à NASA e perguntando sobre relatos de imprensa de que "um grande balão metálico" teria pousado perto de Salvador no dia 8. A hipótese de fundo era concreta: um objeto metálico caído do céu podia ser um fragmento de satélite ou um balão de pesquisa, e a agência espacial tinha interesse direto nisso.

A resposta veio em 20 de novembro, no despacho A-628 do cônsul Harold Midkiff. Nem os jornalistas que foram a Conde nem os curiosos que apareceram encontraram testemunhas, destroços ou cratera. A conclusão do cônsul foi seca: a história fora "aparentemente fabricada no Rio de Janeiro". No catálogo do PURSUE, os documentos aparecem como EOP-UAP-D001 (Gabinete Executivo da Presidência) e DOS-UAP-D001 e D002 (Departamento de Estado).

Por que um caso falso vale a leitura

O interesse do episódio não está no disco, que nunca existiu, mas no que ele revela. Primeiro, a velocidade: uma rádio do Rio lançou a história à noite; a Aeronáutica desmentiu em menos de um dia; a imprensa baiana riu em três. Segundo, o alcance: mesmo desmentido, o relato subiu até a Casa Branca e a NASA, porque em 1963 qualquer coisa que caísse do céu era, antes de tudo, uma questão de segurança e de tecnologia espacial. Terceiro, o método: a diplomacia americana não presumiu nada, mandou verificar, e escreveu um relatório negativo com a mesma formalidade que dedicaria a um caso positivo. É esse registro do "não" que raramente sobrevive nos acervos da ufologia.

O contraste com outros casos brasileiros nos arquivos é instrutivo. Nas fotos de Trindade, de 1958, e na Operação Prato, de 1977, há testemunhas múltiplas, documentação militar e, até hoje, debate. Em Conde, houve apenas uma transmissão de rádio e uma cidade onde ninguém viu nada. Tratamos "não identificado" como aquilo que ainda não tem explicação; o disco de Conde nem chegou a essa categoria. Ainda assim, mereceu três documentos oficiais, um cônsul em campo e, 63 anos depois, um lugar nos arquivos desclassificados. Os dossiês que a FAB libera a cada ano seguem a mesma lógica: a maior parte dos casos termina identificada, e é o registro cuidadoso dos que não terminam que dá valor ao conjunto.

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