Cientistas ganham assento oficial no tema UAP: Avi Loeb lidera conselho consultivo e pede acesso a materiais
Casa Branca, AARO, ODNI e FBI criaram um Conselho Consultivo Científico de UAPs e encarregaram o astrofísico de Harvard de montar a equipe. Ele já cobra o passo seguinte: acesso direto a supostos materiais recuperados. Um grama, diz, bastaria para saber se vieram de fora do Sistema Solar.
Por muito tempo, a ciência acadêmica manteve distância do tema dos UAPs, e o governo americano manteve distância da ciência acadêmica. Em 2026, as duas pontas se tocaram. Um Conselho Consultivo Científico de UAPs foi estabelecido junto à Casa Branca, ao AARO (o escritório de análise de anomalias do Pentágono), ao Escritório do Diretor de Inteligência Nacional, ao FBI e aos demais membros da comunidade de inteligência. À frente dele está Avi Loeb, o astrofísico de Harvard que dirige o Galileo Project e que, em junho, foi encarregado pelas agências de reunir uma equipe de pesquisadores para o trabalho.
O mandato
A missão declarada é direta: descobrir a natureza dos UAPs pelo método científico, o que, na prática, significa obter dados melhores. Loeb resume a aposta numa frase que virou lema do grupo: "manter os olhos nos orbes, não na plateia". O conselho pretende trabalhar em parceria com o governo para coletar novas observações e revisar análises já feitas, como o relatório do AARO datado de 5 de junho, assinado pelo diretor Jon Kosloski, sobre um evento de outubro de 2023 no oeste dos Estados Unidos em que policiais descreveram orbes de comportamento estranho, incluindo um objeto maior que parecia liberar objetos menores.
A cobrança: materiais, não vídeos
Em texto publicado em 26 de agosto, Loeb foi além do mandato e fez o pedido que define a agenda do conselho. Desde 2023, o ex-oficial de inteligência David Grusch afirma, sob juramento, que o governo possui artefatos de origem não humana. Se tais materiais existem, argumenta o astrofísico, cientistas deveriam ter acesso direto a eles e aos relatórios de análise, onde quer que estejam, em agências ou em empresas contratadas.
O motivo é técnico. Uma amostra com mais de um grama (um cubo da largura de um dedo) basta para determinar se um material veio de fora do Sistema Solar, porque toda a matéria do nosso sistema nasceu de uma mesma nuvem de gás, com uma assinatura química e isotópica específica. Loeb sabe do que fala: com o laboratório do geoquímico Stein Jacobsen, analisou fragmentos milimétricos, de um milionésimo de grama cada, recolhidos no Pacífico no local de queda do meteoro interestelar IM1, trabalho publicado em revista com revisão por pares. Material biológico seria ainda mais fácil de distinguir, por exemplo por uma quiralidade de DNA invertida em relação a toda a vida terrestre.
"Faz pouco sentido cientistas continuarem analisando vídeos borrados sem informação suficiente se um atalho para a verdade já está à mão", escreveu Loeb.
A ambiguidade que resta
O próprio pesquisador aponta a saída mais mundana: os EUA certamente recuperaram destroços e restos de tripulantes de equipamentos militares terrestres, e a inteligência pode ter preferido rótulos de "alienígena" para confundir quem não tinha necessidade de saber. Isso explicaria inclusive denunciantes sinceros com informação de segunda mão. Só a análise direta separa os cenários: no primeiro, o material importa à segurança nacional e pouco à ciência; no segundo, seria a descoberta mais impactante da história humana.
Enquanto o acesso não vem, o caminho é o que o conselho e o Galileo Project já praticam: sensores múltiplos em infravermelho, óptico, rádio e áudio, capazes de medir distância, velocidade e aceleração, exatamente o que os arquivos do programa PURSUE, por serem relatórios, imagens e vídeos, não permitem determinar. E há a frente institucional: Loeb defende que denunciantes recebam garantias legais para falar, o que a diretriz da ODNI de julho começou a oferecer. Pela primeira vez, ciência, inteligência e Congresso estão puxando o mesmo fio, cada um pelo seu lado.
Fontes desta matéria
- Avi Loeb (Medium): "A UAP Science Advisory Council to the U.S. Government" (13/06/2026)
- Avi Loeb (Medium): "Scientists Deserve First-Hand Evidence on UAP Materials" (26/08/2026)
- UAP Science Advisory Council: site oficial
- Chemical Geology: análise química e isotópica dos fragmentos do meteoro interestelar IM1 (artigo revisado por pares)
- PURSUE: portal oficial de arquivos desclassificados de UAPs