França leva os UAPs à Assembleia Nacional e mostra como 50 anos de método mudam o debate
Colóquio no parlamento francês reuniu parlamentares, cientistas, militares e o GEIPAN, o órgão oficial que investiga fenômenos aéreos desde 1977, dono do acervo público mais transparente do mundo no tema.
Enquanto os holofotes do debate sobre UAPs apontam para Washington, a França cultiva há meio século uma abordagem própria: discreta, técnica e surpreendentemente transparente. Ela ganhou palco político em 29 de junho, quando a Assembleia Nacional sediou o colóquio público "Pesquisa sobre Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados: para além da fantasia", reunindo parlamentares, cientistas, representantes militares e o órgão que dá identidade ao modelo francês: o GEIPAN.
O que é o GEIPAN
Criado em 1977 dentro do CNES, a agência espacial francesa, o Grupo de Estudos e Informações sobre Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados é o mais antigo serviço estatal do gênero em operação contínua no Ocidente. Sua missão declarada: coletar relatos, investigar com método e publicar tudo. O acervo aberto soma 3.368 casos estudados, cada um com dossiê consultável na internet, incluindo ocorrências registradas em 2026, de Papeete, no Taiti, à região metropolitana de Paris.
A estatística do grupo é uma aula de calibração de expectativas: cerca de 28% dos casos são totalmente identificados e outros 39% provavelmente identificados (balões, satélites, corpos celestes, aeronaves). Sobra uma minoria classificada como "D": inexplicada mesmo com dados de boa qualidade. É esse resíduo, pequeno mas persistente, que mantém o programa vivo há cinco décadas.
O modelo francês inverte a lógica do sigilo: em vez de perguntar "o que o governo esconde?", o público pode perguntar "o que os dados mostram?", porque os dossiês estão todos lá.
O colóquio e o novo momento
Sob a direção de Frédéric Courtade (engenheiro de materiais com vinte anos de CNES, à frente do GEIPAN desde 2024), o órgão chegou ao evento parlamentar num momento de reaquecimento global do tema. Os debates trataram de padronização de dados entre países, cooperação científica e a diferença entre a via francesa, centrada em análise caso a caso, e o modelo americano de audiências e desclassificações em massa como o programa PURSUE.
Por que interessa ao Brasil
Entre o arquivamento brasileiro via FAB, sem órgão permanente de análise, e as estruturas em criação como a do Japão, o GEIPAN representa um terceiro caminho: barato, científico e radicalmente público. Para quem defende que os dossiês da FAB mereciam tratamento sistemático, a França é o argumento vivo de que isso é viável: há 50 anos.