Radar mais telescópio de um metro: o "observatório de orbes" que Avi Loeb quer construir para fotografar UAPs com detalhe de centímetros
Os orbes são o resíduo mais intrigante dos cinco primeiros lotes do PURSUE, mas quase sempre aparecem em vídeos infravermelhos borrados, sem radar. O presidente do conselho científico de UAPs propõe um instrumento que combina radar de céu inteiro com um telescópio de um metro: resolução de um segundo de arco, o suficiente para ver detalhes do tamanho de uma ervilha a dois quilômetros. O Galileo Project vai desenhar seu próximo observatório nesse molde.
Se há uma categoria de relato que atravessa os cinco primeiros lotes de arquivos desclassificados pelo governo americano desde maio, é a dos orbes: entidades luminosas, na escala de metros, que aparecem sozinhas ou em enxames e que o AARO, o escritório do Pentágono para anomalias, não conseguiu resolver. Em texto publicado em 5 de setembro, o astrofísico Avi Loeb, que preside o conselho consultivo científico de UAPs criado junto à Casa Branca e às agências de inteligência, propõe um caminho para tirá-los da ambiguidade: um observatório dedicado, com dois instrumentos que se completam.
O problema: muitos vídeos, pouca medida
Os arquivos do PURSUE descrevem orbes com riqueza narrativa e pobreza de dados. O segundo lote traz o relato de um oficial sênior de inteligência que, em 2025, ficou "praticamente sem palavras" após uma hora observando orbes laranja, e menciona "incontáveis orbes laranja enxameando em todas as direções" contra o fundo de uma montanha. O quinto lote contém o relato de uma tripulação de helicóptero sobre "uma série de encontros próximos com UAPs por mais de uma hora", com dois objetos maiores, "ovais, laranja com centro branco ou amarelo, emitindo luz em todas as direções", parados logo acima do disco do rotor, e que teriam reagido em quinze segundos a disparos. Há os cerca de 25 orbes "frios" que manobraram perto de um AC-130J sobre o Golfo de Omã em setembro de 2021, velocidades entre Mach 0,3 e 1,7 e um caso na Síria com aceleração instantânea.
O que quase nunca há é radar. A maioria dos registros de orbes vem de sensores infravermelhos ou eletro-ópticos, gravações de celular e entrevistas, sem uma medida independente de distância. Sem distância, não há tamanho, nem velocidade, nem aceleração reais, apenas ângulos e impressões. Foi esse o ponto que Loeb já explorara ao analisar o que a física deduz de um orbe derrubado. A exceção histórica, um memorando da CIA de 1965 sobre um objeto em forma de delta rastreado a Mach 3 pelo radar do destróier USS Gyatt perto de Porto Rico, mostra o que um eco de radar acrescenta: números.
A proposta: radar para achar, telescópio para ver
O conceito tem duas partes. A primeira é um sistema de radar que cubra todo o céu e identifique alvos de interesse com precisão de posição melhor que o campo de visão do telescópio. Pode ser ativo, emitindo o próprio feixe, ou passivo, aproveitando os reflexos de transmissões já existentes de rádio, televisão e satélites. A segunda é um telescópio de um metro de diâmetro, como o CDK1000, um modelo comercial da PlaneWave, capaz de resolver detalhes na escala de um segundo de arco. Na prática, isso significa enxergar estruturas de um centímetro, "comparáveis ao diâmetro de uma ervilha", a dois quilômetros de distância.
A mecânica fecha a conta. A cúpula desse tipo de telescópio gira a três graus por segundo, o que basta para seguir um alvo a Mach 0,1 desde que ele esteja a mais de 600 metros, e os orbes relatados costumam ficar no céu por minutos ou horas, alvos fáceis para quem consegue apontar. Detectado pelo radar, o objeto recebe o telescópio, que produz uma imagem de alta resolução e, com um espectrógrafo acoplado, um espectro. É aí que a proposta ganha seu argumento mais forte: em 2012, uma equipe que estudava raios comuns com um espectrômetro ligado capturou por acaso um raio globular e obteve, pela primeira vez, seu espectro de emissão, com linhas de silício, ferro e cálcio, elementos do solo, o que apoiou o modelo do fenômeno como vapor de silício. Um espectro de orbe faria pelos UAPs o que aquele registro fez por um dos fenômenos atmosféricos mais controversos. Segundo Loeb, o Galileo Project, a rede de observatórios de Harvard, vai projetar seu próximo observatório como um "imageador de orbes" com essa arquitetura.
O que esperar, com os pés no chão
A ideia é boa porque converte anedotas em grandezas: distância, tamanho, velocidade, composição. Mas vale calibrar a expectativa. Um radar de céu inteiro recolhe pássaros, drones, balões e satélites, e a maior parte do que o telescópio fotografar será mundano; o próprio Galileo Project já mostrou que, sem radar, seus sensores infravermelhos viam sobretudo aviões e drones, e o Starlink segue fabricando "OVNIs" toda noite. O radar passivo tem limites de sensibilidade, e o sistema só flagra o que passar sobre ele, o que exige escolher bem o lugar. Nada disso é objeção: um instrumento que identifica rapidamente 99% dos alvos é justamente o que se precisa para isolar o 1% que importa. A diferença em relação aos vídeos do PURSUE é que, dessa vez, o "não identificado" viria acompanhado de medidas.
Fontes desta matéria
- Avi Loeb (Medium): "A New Observatory Concept for Imaging UAP Orbs" (05/09/2026)
- PURSUE: portal oficial de arquivos desclassificados de UAPs (lotes 2 e 5 citados)
- PlaneWave: especificações do telescópio CDK1000, de um metro
- Physical Review Letters: espectro de um raio globular natural registrado em 2012 (artigo de 2014)
- Galileo Project: site oficial